quem sou EU

Quem sou eu? Talvez a pergunta esteja errada

Quando eu pergunto “Quem sou eu?”, é muito tentador procurar alguma coisa escondida dentro de mim: uma essência, uma personalidade verdadeira, um “eu” definitivo que finalmente explique tudo.

Só que a psicologia contemporânea nos apresenta uma possibilidade bem diferente: talvez eu não seja uma coisa pronta. Talvez eu seja um processo contínuo de transformação.

Pense em uma sequência de fotos suas, desde o nascimento até hoje. Em qual fotografia você deixou de ser você?

Provavelmente em nenhuma.

Seu corpo mudou, seus pensamentos mudaram, suas relações mudaram e até aquilo que você acreditava ser fundamental pode ter mudado. Ainda assim, existe uma continuidade.

O modelo biopsicossocial e a falácia da causa única

Eu gosto de pensar no ser humano pelo modelo biopsicossocial.

Aquilo que eu sou agora surge do encontro entre fatores biológicos, minha história e experiências psicológicas e o ambiente social no qual estou inserido.

Por isso, tentar explicar um comportamento complexo procurando uma única causa costuma ser um erro.

É como perguntar: “Por que um carro se move?”

Motor? Combustível? Motorista? Pneus? Estrada?

Retire algumas dessas condições e o movimento simplesmente não acontece.

Comportamento humano também é complexo.

O “ego maldito” e a prisão de precisar ser alguém

O problema começa quando eu transformo minha identidade em uma narrativa rígida:

“Eu sou assim.”

“Isso não é para mim.”

“Eu nunca conseguiria fazer isso.”

Esse ego inflexível pode virar uma prisão.

Até nossa relação com arte abstrata ajuda a perceber isso. Se eu preciso que tudo tenha um significado óbvio, linear e imediatamente compreensível, talvez minha dificuldade não esteja apenas na obra. Pode estar na minha capacidade de permanecer aberto ao desconhecido.

E essa abertura também importa na vida.

Buscar uma versão perfeita de mim mesmo pode ser cruel, porque essa versão provavelmente nunca existirá.

Prefiro pensar em três pilares para desenvolver flexibilidade psicológica: abertura, consciência e engajamento.

Eu me abro para aquilo que acontece, observo meus pensamentos e emoções e escolho como quero agir diante das possibilidades reais.

Por isso, talvez uma pergunta mais interessante do que “Quem sou eu?” seja:

“Quem eu quero ser diante daquilo que está acontecendo comigo agora?”

Porque eu não sou uma essência esperando para ser descoberta.

Eu estou sendo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *